{"id":2386,"date":"2022-04-30T20:30:14","date_gmt":"2022-04-30T19:30:14","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.omeuimo.pt\/imoexpansao\/?p=2386"},"modified":"2022-04-28T15:26:00","modified_gmt":"2022-04-28T14:26:00","slug":"abril-em-portugal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.omeuimo.pt\/imoexpansao\/abril-em-portugal\/","title":{"rendered":"Abril em Portugal"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Em 1939 um militar comp\u00f4s uma can\u00e7\u00e3o, que durante anos ficou esquecida numa gaveta, intitulada \u201cCoimbra\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em Coimbra, tr\u00eas d\u00e9cadas volvidas (a 17 de Abril de 1969), assistiu-se a um ousado desafio de jovens universit\u00e1rios \u00e0 mais velha Ditadura da Europa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ditadura essa derrubada passados cinco anos (a 25 de Abril de 1974) por um movimento de militares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Tr\u00eas factos muito diversos, mas relacionados &#8211; como passo a explicar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ra\u00fal Ferr\u00e3o abra\u00e7ou a carreira militar com apenas 17 anos (em 1907), licenciou-se em Engenharia Qu\u00edmica, combateu em \u00c1frica na I Guerra Mundial. Mas o seu nome ficou ligado, sobretudo, \u00e0 m\u00fasica. Foi um dos mais prol\u00edficos compositores portugueses e entre as muitas dezenas de can\u00e7\u00f5es de sua autoria, \u201cCoimbra\u201d \u00e9 a mais famosa. S\u00f3 viria a p\u00fablica em 1947, no filme \u201cCapas Negras\u201d, com letra de Jos\u00e9 Galhardo e interpretada por Alberto Ribeiro. Contudo, foi em 1952 que conquistou o Pa\u00eds e o Mundo, quando Am\u00e1lia Rodrigues come\u00e7ou a cant\u00e1-la com a designa\u00e7\u00e3o de \u201cAbril em Portugal\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ora foi num m\u00eas de Abril, em 1969, que a velha Ditadura salazarista (ent\u00e3o j\u00e1 liderada por Marcelo Caetano) enfrentou a maior das suas afrontas, exactamente em Coimbra e na Universidade que \u201cdeu\u201d Salazar ao Pa\u00eds. Foi no dia 17 desse m\u00eas, quando centenas de estudantes ousaram manifestar-se contra o regime durante a cerim\u00f3nia em que o ent\u00e3o Presidente da Rep\u00fablica, Am\u00e9rico Tom\u00e1s, presidiu \u00e0 inaugura\u00e7\u00e3o do Departamento de Matem\u00e1tica. Nunca algu\u00e9m se atrevera a criticar assim, face a face, \u201co venerando Chefe de Estado\u201d (tratamento dado ao velho almirante).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Um atrevimento que foi severamente punido, com dezenas de dirigentes estudantis a serem presos pela pol\u00edcia pol\u00edtica, impedidos de prosseguir os seus estudos e, em vez disso, coercivamente incorporados no Ex\u00e9rcito e espalhados por diversos quart\u00e9is de todo o Pa\u00eds, antes de serem enviados para a Guerra Colonial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Com isso, mais do que \u201cum tiro no p\u00e9\u201d, o regime atingiu-se a si pr\u00f3prio com uma \u201crajada de politiza\u00e7\u00e3o\u201d nas For\u00e7as Armadas que lhes serviam de esteio. De facto, os jovens dirigentes estudantis disseminados pelos quart\u00e9is, estavam, na sua maioria, ligados a grupos oposicionistas clandestinos, tendo, por isso, forma\u00e7\u00e3o e informa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica com que foram \u201ccontaminando\u201d os militares do quadro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Esse trabalho de sensibiliza\u00e7\u00e3o e de esclarecimento viria contribuir para o chamado \u201cMovimento dos Capit\u00e3es\u201d que, cinco anos volvidos, tamb\u00e9m em Abril, teve a coragem de, arriscando o futuro e a pr\u00f3pria vida, p\u00f4r em marcha \u201ca Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos\u201d. Por ironia, essa Revolu\u00e7\u00e3o derrubou um regime implantado tamb\u00e9m por um golpe militar, em 1926, que \u00e0 Universidade de Coimbra fora buscar Salazar, dando origem ao auto-intitulado Estado Novo e que viria a ser a mais velha Ditadura da Europa, inspirada no nazi-fascismo alem\u00e3o, com r\u00e9plicas assumidas &#8211; como, por exemplo, a Mocidade Portuguesa, que era uma c\u00f3pia da Juventude Hitleriana, ou a Legi\u00e3o Portuguesa. Mas tamb\u00e9m a proibi\u00e7\u00e3o dos partidos pol\u00edticos, a violenta pol\u00edcia pol\u00edtica (que teve v\u00e1rias designa\u00e7\u00f5es, mas ficou conhecida como PIDE), que se infiltrava em todos os sectores da sociedade, prendendo quem se atrevesse a fazer qualquer cr\u00edtica, expulsando das Universidades alguns dos seus mais brilhantes professores, torturando milhares de oposicionistas que passaram pelas suas pris\u00f5es; chegando mesmo a assassinar pol\u00edticos inc\u00f3modos (como sucedeu com o general Humberto Delgado).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">S\u00f3 quem viveu esses tempos pode avaliar, de forma objectiva, as extraordin\u00e1rias mudan\u00e7as que se operaram no nosso Pa\u00eds, at\u00e9 ent\u00e3o \u201corgulhosamente s\u00f3\u201d (como Salazar gostava de referir), com um povo oprimido e mergulhado na mis\u00e9ria, na ignor\u00e2ncia, na priva\u00e7\u00e3o dos mais elementares direitos, liberdades e garantias, enlutado pela morte de milhares dos seus jovens obrigados a combater nas tr\u00eas frentes (Angola, Mo\u00e7ambique e Guin\u00e9) de uma Guerra Colonial que se prolongou por 13 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Hoje continua a haver algumas injusti\u00e7as e desigualdades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mas n\u00e3o h\u00e1 gente descal\u00e7a, andrajosa e esfomeada pelas ruas das cidades e vilas e pelos caminhos enlameados das aldeias. N\u00e3o h\u00e1 o fantasma da guerra que pesou sobre todos os jovens portugueses e suas fam\u00edlias durante tantos anos. N\u00e3o h\u00e1 o analfabetismo e o trabalho quase escravo. E tantos outros aspectos que os mais jovens desconhecem e grande parte dos mais velhos j\u00e1 esqueceu\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em contrapartida h\u00e1 um bem supremo, a que s\u00f3 se d\u00e1 o justo valor quando ele n\u00e3o existe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 aquele que me consente dizer o que penso e me permite escrever, neste texto, o que sinto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Chama-se liberdade!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">E deve-se ao Abril em Portugal &#8211; desencadeado por uma outra can\u00e7\u00e3o (\u201cGr\u00e2ndola, vila morena\u201d) da autoria de Zeca Afonso, um dos mais marcantes vultos da m\u00fasica portuguesa e antigo estudante de Coimbra\u2026<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;font-size: 12px\">Jorge Castilho &#8211; Presidente da Associa\u00e7\u00e3o dos Antigos Estudantes de Coimbra, in Di\u00e1rio As Beiras (27-04-2022)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1939 um militar comp\u00f4s uma can\u00e7\u00e3o, que durante anos ficou esquecida numa gaveta, intitulada \u201cCoimbra\u201d. 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