{"id":2478,"date":"2022-07-11T12:06:34","date_gmt":"2022-07-11T11:06:34","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.omeuimo.pt\/imoexpansao\/?p=2478"},"modified":"2022-07-11T12:14:16","modified_gmt":"2022-07-11T11:14:16","slug":"a-caixa-negra-do-imi-que-leva-coimbra-a-pagar-mais-que-porto-e-braga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.omeuimo.pt\/imoexpansao\/a-caixa-negra-do-imi-que-leva-coimbra-a-pagar-mais-que-porto-e-braga\/","title":{"rendered":"A \u201ccaixa negra\u201d do IMI que leva Coimbra a pagar mais que Porto e Braga"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">O m\u00eas de Maio \u00e9 sin\u00f3nimo de pagamento do Imposto Municipal sobre Im\u00f3veis (IMI). Neste contexto, proponho o seguinte exerc\u00edcio: imagine tr\u00eas im\u00f3veis exactamente iguais com exce\u00e7\u00e3o da localiza\u00e7\u00e3o &#8211; um situado na Av. S\u00e1 da Bandeira, em Coimbra, outro na Av. dos Aliados, no Porto, e um terceiro na Av. Central em Braga. Sabia que o propriet\u00e1rio conimbricense ir\u00e1 pagar mais de IMI do que o portuense e quase o dobro do bracarense?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Tratando-se de um imposto municipal, poder\u00e1 pensar-se que este facto est\u00e1 relacionado com a a\u00e7\u00e3o dos executivos municipais. S\u00f3 que isso n\u00e3o \u00e9 verdade. Esta situa\u00e7\u00e3o resulta do m\u00e9todo de c\u00e1lculo previsto no C\u00f3digo do IMI (Decreto-Lei n\u00ba 287\/2003, de 12 de novembro) e, em particular, da defini\u00e7\u00e3o do coeficiente que mais influencia esse c\u00e1lculo, que \u00e9 pouco transparente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O valor a pagar de IMI \u00e9 igual \u00e0 taxa de IMI do munic\u00edpio a multiplicar pelo valor patrimonial tribut\u00e1rio do im\u00f3vel (ou seja, quanto o im\u00f3vel vale para as finan\u00e7as).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A taxa de IMI \u00e9 fixada anualmente por cada munic\u00edpio. Legalmente, pode variar entre 0.30% e 0.45%. Em Coimbra, a taxa de IMI \u00e9 de 0.30%, ou seja, o valor mais baixo permitido por lei. No Porto e em Braga, os valores s\u00e3o ligeiramente superiores (0.324% e 0.33%, respectivamente). Assim, no que depende da a\u00e7\u00e3o governativa local, os propriet\u00e1rios conimbricenses at\u00e9 s\u00e3o beneficiados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O problema reside na determina\u00e7\u00e3o do valor patrimonial tribut\u00e1rio (Vt), cuja express\u00e3o de c\u00e1lculo, definida no artigo 38.\u00ba do C\u00f3digo do IMI, \u00e9: Vt = Vc x A x Ca x Cl x Cq x Cv.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ou seja, o valor patrimonial tribut\u00e1rio (Vt) \u00e9 igual ao valor base (Vc, que \u00e9 id\u00eantico em todo o pa\u00eds, e corresponde a um valor m\u00e9dio do pre\u00e7o de constru\u00e7\u00e3o por metro quadrado) multiplicado pela \u00e1rea do im\u00f3vel (A) e por quatro coeficientes &#8211; o de afecta\u00e7\u00e3o (Ca), o de localiza\u00e7\u00e3o (Cl), o de qualidade e conforto (Cq), e o de vetustez (Cv).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No exemplo acima &#8211; de im\u00f3veis exactamente iguais, com o mesmo projeto, constru\u00eddos pelo mesmo empreiteiro, na mesma data, em que apenas muda a localiza\u00e7\u00e3o &#8211; todos os valores que entram para o c\u00e1lculo do Vt s\u00e3o iguais com exce\u00e7\u00e3o do coeficiente de localiza\u00e7\u00e3o (Cl). No caso da Av. Central, em Braga, o valor do Cl \u00e9 de apenas 1,3, na Av. dos Aliados, no Porto, \u00e9 2,0 enquanto na Av. S\u00e1 da Bandeira, em Coimbra, \u00e9 igual a 2,1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Assim, se o valor calculado, at\u00e9 \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o do Cl for de 100 mil euros para os tr\u00eas im\u00f3veis, ap\u00f3s a multiplica\u00e7\u00e3o por este coeficiente, o Vt em Braga ser\u00e1 de 130 mil euros, no Porto ser\u00e1 de 200 mil euros, e em Coimbra ser\u00e1 de 210 mil euros. O valor a pagar de IMI \u00e9 ent\u00e3o igual \u00e0 multiplica\u00e7\u00e3o destes valores de Vt pelas taxas municipais. Daqui resulta que o propriet\u00e1rio conimbricense &#8211; dono de uma loja, um caf\u00e9, ou uma habita\u00e7\u00e3o &#8211; pagar\u00e1 um IMI superior ao propriet\u00e1rio portuense e mais 61,5% que o propriet\u00e1rio bracarense.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A estranheza n\u00e3o se resume a este exerc\u00edcio. De facto, se compararmos os valores de Cl nas v\u00e1rias \u00e1reas urbanas das cidades de Braga e Coimbra, o valor m\u00e1ximo em Braga \u00e9 1,3 (precisamente na zona central), enquanto em Coimbra o valor m\u00ednimo \u00e9 1,35 (na \u201cbaixinha\u201d) e o m\u00e1ximo \u00e9 2,45 (na Qta. de S\u00e3o Jer\u00f3nimo). Ou seja, o valor m\u00ednimo em Coimbra \u00e9 mais elevado que o m\u00e1ximo em Braga! E o m\u00e1ximo em Coimbra \u00e9 quase o dobro do m\u00e1ximo em Braga. Paga, conimbricense.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A incredulidade tamb\u00e9m n\u00e3o se resume a uma mera compara\u00e7\u00e3o Braga-Coimbra. Nas zonas centrais de Aveiro, Leiria, e Figueira da Foz, os valores de Cl s\u00e3o sempre acima do valor m\u00e1ximo de 1,3 para Braga. Em Aveiro, na Av. Doutor Louren\u00e7o Peixinho, o Cl \u00e9 de 1,8 ou 1,9. Na baixa de Leiria, na Pra\u00e7a Rodrigues Lobo, o Cl \u00e9 1,5, e na Figueira da Foz, os valores s\u00e3o 1,4 ou 1,6.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Os valores de Cl podem ser consultados atrav\u00e9s da plataforma <a href=\"https:\/\/zoneamentopf.portaldasfinancas.gov.pt\/simulador\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/zoneamentopf.portaldasfinancas.gov.pt\/simulador\/<\/a>.<br \/>\nUma an\u00e1lise atenta revela que a distribui\u00e7\u00e3o dos valores de Cl dentro de cada munic\u00edpio \u00e9 bastante razo\u00e1vel. No entanto, parece n\u00e3o existir uma grande coer\u00eancia na compara\u00e7\u00e3o entre os diferentes munic\u00edpios, como demonstrei com os exemplos acima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Torna-se ent\u00e3o fundamental compreender como s\u00e3o definidos os valores do coeficiente (Cl) para todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Para os pr\u00e9dios urbanos, a responsabilidade de defini\u00e7\u00e3o dos Cl \u00e9 da Comiss\u00e3o Nacional de Avalia\u00e7\u00e3o de Pr\u00e9dios Urbanos (CNAPU). Esta comiss\u00e3o \u00e9 nomeada pelo Ministro das Finan\u00e7as e composta por membros indicados por v\u00e1rias entidades, como a Dire\u00e7\u00e3o-Geral dos Impostos, a Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos Munic\u00edpios Portugueses, e associa\u00e7\u00f5es do setor da constru\u00e7\u00e3o e do imobili\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Pelo c\u00f3digo do IMI (artigo 42.\u00ba), a determina\u00e7\u00e3o dos Cl deve tomar em considera\u00e7\u00e3o \u201cas seguintes caracter\u00edsticas: a) Acessibilidades, considerando-se como tais a qualidade e variedade das vias rodovi\u00e1rias, ferrovi\u00e1rias, fluviais e mar\u00edtimas; b) Proximidade de equipamentos sociais, designadamente escolas, servi\u00e7os p\u00fablicos e com\u00e9rcio; c) Servi\u00e7os de transportes p\u00fablicos; d) Localiza\u00e7\u00e3o em zonas de elevador valor de mercado imobili\u00e1rio\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Por estes quatro factores, a disparidade de valores para o Cl que se verifica entre as zonas centrais de Porto e Braga e as de Coimbra, Aveiro, Leiria, e Figueira da Foz \u00e9 pouco cred\u00edvel e demasiado \u201cpenalizadora\u201d para as cidades da regi\u00e3o Centro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na realidade, apesar de se saber como \u00e9 composta a CNAPU e quais os factores que os seus membros devem ter em conta na defini\u00e7\u00e3o dos Cl, o c\u00e1lculo em si \u00e9 uma verdadeira \u201ccaixa negra\u201d. N\u00e3o se conhece como \u00e9 quantificado cada um destes quatro fatores, nem qual a import\u00e2ncia de cada um para o valor final dos Cl.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Por \u00faltimo, importa salientar que os valores dos Cl s\u00e3o estabelecidos trienalmente e que foi em 2019 que foram definidos pela \u00faltima vez. Assim, a nova revis\u00e3o dever\u00e1 ter lugar neste ano de 2022.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Esta revis\u00e3o ser\u00e1 determinante para o valor de IMI a pagar nos pr\u00f3ximos tr\u00eas anos. N\u00e3o ser\u00e1 caso para todos os interessados &#8211; dos cidad\u00e3os \u00e0s autarquias &#8211; ficarem atentos e exigirem maior transpar\u00eancia neste processo e coer\u00eancia nos resultados?<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;font-size: 12px\">Jo\u00e3o Bigotte &#8211; Docente de Inova\u00e7\u00e3o, Urbanismo e Transportes\/FCTUC, in<br \/>\nDi\u00e1rio As Beiras (11-05-2022)<\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O m\u00eas de Maio \u00e9 sin\u00f3nimo de pagamento do Imposto Municipal sobre Im\u00f3veis (IMI). Neste contexto, proponho o seguinte exerc\u00edcio: imagine tr\u00eas im\u00f3veis exactamente iguais com exce\u00e7\u00e3o da localiza\u00e7\u00e3o &#8211; um situado na Av. S\u00e1 da Bandeira, em Coimbra, outro na Av. dos Aliados, no Porto, e um terceiro na Av. Central em Braga. 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