{"id":2970,"date":"2022-10-26T11:39:17","date_gmt":"2022-10-26T10:39:17","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.omeuimo.pt\/imoexpansao\/?p=2970"},"modified":"2022-10-26T11:41:45","modified_gmt":"2022-10-26T10:41:45","slug":"obra-de-arte-total-nao-arquitecturofobia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.omeuimo.pt\/imoexpansao\/obra-de-arte-total-nao-arquitecturofobia\/","title":{"rendered":"Obra de arte total? N\u00e3o, arquitecturofobia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\"><strong>H\u00e1 cerca de dois s\u00e9culos atr\u00e1s, o Romantismo alem\u00e3o criou o conceito de gesamkunstwerk, que tem sido comumente traduzido por obra de arte total.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Desde ent\u00e3o para c\u00e1, muitas e muito variadas t\u00eam sido as tentativas de alcan\u00e7ar esse des\u00edgnio de criar o objecto art\u00edstico perfeito, que harmonize e conjugue todas as artes. A \u00f3pera, por exemplo, foi apenas uma aproxima\u00e7\u00e3o, mas houve outras, algumas delas heroicas.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ao longo do s\u00e9culo passado, o Movimento Moderno, foi tentando, por diversas formas, aplicar o conceito. No que diz respeito \u00e0 Arquitectura desenvolveu-se a possibilidade de integrar artistas pl\u00e1sticos, escultores e pintores, no processo de produ\u00e7\u00e3o dos edif\u00edcios e dos espa\u00e7os p\u00fablicos. A inten\u00e7\u00e3o pressupunha sempre um m\u00e9todo de concep\u00e7\u00e3o conjunta, na qual cada um dos intervenientes agia em estrito respeito e cumplicidade pela obra de cada um dos outros. Em Portugal, v\u00e1rios exemplos deste modelo interventivo se foram desenvolvendo, uns mais bem conseguidos, outros nem tanto. Em rela\u00e7\u00e3o aos primeiros, vale por todas a magn\u00edfica obra das instala\u00e7\u00f5es da Associa\u00e7\u00e3o Acad\u00e9mica de Coimbra (1954-61), t\u00e3o mal tratada nos dias que correm. Alberto Jos\u00e9 Pessoa (arquitectura e pain\u00e9is cer\u00e2micos) e Manuel Cerveira (jardins) trabalharam sempre em conjunto, assumindo cada um deles a sua parte da obra em estrita cumplicidade com os outros. Em rela\u00e7\u00e3o aos segundos, mais mal conseguidos, podem ser referidas as est\u00e1tuas dos pr\u00e9dios de rendimento lisboetas da d\u00e9cada de 1950, as meninas entaladas, como as designava Keil do Amaral, por se tratar, na maior parte dos casos, de figuras femininas que eram literalmente metidas \u00e0 press\u00e3o, entaladas entre a padieira da porta de acesso e as varandas do primeiro andar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Vem isto a prop\u00f3sito da situa\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea. Hoje, um pouco por todo o lado, as fachadas de alguns edif\u00edcios de qualidade s\u00e3o usadas e abusadas, n\u00e3o como obra de arte integrada, mas como suporte para as artes visuais.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"padding: 10px\" class=\"alignleft size-full wp-image-2968\" src=\"https:\/\/wp.omeuimo.pt\/imoexpansao\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/10\/Figura1.jpg-525-min.jpg\" alt=\"Imobili\u00e1rias Figueira da Foz\" width=\"525\" height=\"1095\" srcset=\"https:\/\/wp.omeuimo.pt\/imoexpansao\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/10\/Figura1.jpg-525-min.jpg 525w, https:\/\/wp.omeuimo.pt\/imoexpansao\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/10\/Figura1.jpg-525-min-144x300.jpg 144w, https:\/\/wp.omeuimo.pt\/imoexpansao\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/10\/Figura1.jpg-525-min-491x1024.jpg 491w\" sizes=\"auto, (max-width: 525px) 100vw, 525px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">As ditas \u201cobras de arte\u201d, algumas delas gigantescos pain\u00e9is publicit\u00e1rios de qualidade gr\u00e1fica duvidosa, s\u00e3o indiscriminadamente escarrapachadas na fachada de um qualquer edif\u00edcio. N\u00e3o interessa para nada a sua qualidade arquitect\u00f3nica e urbana, s\u00f3 interessa que seja vis\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o interessa integrar a arquitectura, interessa s\u00f3 us\u00e1-la como suporte &#8211; \u201cas telas j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o na moda, vamos aqui aprantar este objecto que assim toda a gente o v\u00ea, quer queira, quer n\u00e3o queira\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o interessa conjugar as artes, interessa t\u00e3o s\u00f3 anular e amesquinhar uma delas, para salientar a outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mesmo que fossem obras de arte, e a maior parte das vezes n\u00e3o o s\u00e3o, fazem um uso licencioso da arquitectura p\u00fablica para prop\u00f3sitos de divulga\u00e7\u00e3o, ou de satisfa\u00e7\u00e3o, privados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Do modo intenso como tem vindo a ser disseminado por todas as cidades, quer seja com prop\u00f3sitos alegadamente culturais, quer inconfessadamente comerciais, quer seja pelos pichadores marginais, quer pelas mais respeitadas institui\u00e7\u00f5es, o uso da fachada de edif\u00edcios qualificados como mero suporte para comunica\u00e7\u00e3o visual, sem tentar sequer tentar perceber o seu significado art\u00edstico, corresponde a uma esp\u00e9cie de \u201carquitecturofobia\u201d, corresponde a algo que, por despeito ou mesmo por inveja, tenta anular a mais p\u00fablica das artes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quem fica a perder \u00e9 a coisa p\u00fablica por excel\u00eancia, a cidade, claro.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;font-size: 12px\">Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Bandeirinha &#8211; Universidade de Coimbra, Centro de Estudos Sociais, in Di\u00e1rio As Beiras (28\/09\/2022)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 cerca de dois s\u00e9culos atr\u00e1s, o Romantismo alem\u00e3o criou o conceito de gesamkunstwerk, que tem sido comumente traduzido por obra de arte total. 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