{"id":3516,"date":"2023-08-10T20:30:55","date_gmt":"2023-08-10T19:30:55","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.omeuimo.pt\/imoexpansao\/?p=3516"},"modified":"2023-07-28T16:17:44","modified_gmt":"2023-07-28T15:17:44","slug":"as-persianas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.omeuimo.pt\/imoexpansao\/as-persianas\/","title":{"rendered":"As Persianas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 preciso ver a rua, o que l\u00e1 acontece, quem sobe e desce, as pessoas que entram nas casas atr\u00e1s das \u00e1rvores. As copas s\u00e3o amplas e derramam as sombras na cal\u00e7ada. Fora de horas, os passos ecoam nas paredes, ouvem-se os saltos, consigo imaginar a porta onde se silenciam.\u00a0 Depois das dez, as persianas descem, \u00e9 esse o momento que separa verdadeiramente o dia e a noite. No Ver\u00e3o h\u00e1 quem deixe as janelas abertas, nos andares superiores, para arejar a casa. Os gatos adormecem no parapeito, equilibram-se numa nesga de espa\u00e7o, s\u00e3o a companhia contra alguma solid\u00e3o. Nos pr\u00e9dios mais antigos, vivem muitos idosos, pessoas que sempre moraram ali, onde os filhos cresceram, at\u00e9 ficarem sozinhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Cada janela conta uma hist\u00f3ria. Quando a rua tinha muitas crian\u00e7as, as m\u00e3es e as av\u00f3s vigiavam a crian\u00e7ada das janelas e das varandas. Agora est\u00e3o s\u00f3s, os filhos s\u00e3o pais e os netos brincam noutros lugares. O abandono dos pr\u00e9dios \u00e9 uma dolorosa realidade. Nos quintais a erva invade as portas de entrada. Ainda h\u00e1 limoeiros e outras \u00e1rvores que continuam indiferentes \u00e0s vozes de outrora. Num dos pr\u00e9dios, o c\u00e3o morreu primeiro que o dono; com as chuvas, as ervas tomaram altura e as paredes ficaram sujas. O tempo gastou a vida. O que d\u00f3i \u00e9 n\u00e3o poder parar o tempo: ficar com as crian\u00e7as, as av\u00f3s, os animais e os sons da brisa nascente que, ainda, trazem os cheiros das hortas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quando as persianas descem, escondem-se os cabelos brancos, as mem\u00f3rias e as perdas. Calam-se as conversas entre as vizinhas. As sombras ocupam os espa\u00e7os interiores; as fotografias, nos m\u00f3veis, perpetuam o passado. A noite instala-se onde outrora se escutava a respira\u00e7\u00e3o dos corpos. N\u00e3o \u00e9 o fim do mundo, mas um retrato do mundo que j\u00e1 existiu e, talvez, o seu recome\u00e7o noutro lugar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Rua acima, os pr\u00e9dios do Estado Novo imp\u00f5em-se pelas fachadas austeras, s\u00e3o constru\u00e7\u00f5es s\u00f3lidas, com garagens exteriores e amplos espa\u00e7os na retaguarda. Eram casas destinadas aos altos funcion\u00e1rios do Estado, muitos j\u00e1 falecidos. Os herdeiros descaracterizaram o bairro, arrendaram os apartamentos &#8211; todos os anos chegam novos inquilinos, a maioria estudantes. Ainda h\u00e1 quem se sente nas soleiras das portas, ao final da tarde, para tagarelar com as vizinhas que chegam devagarinho. Algumas v\u00eam de avental e chinelos de quarto; sem pressa, encostam-se ao muro, desenrolam a l\u00edngua at\u00e9 o vento encanar. \u00c9 um ritual que ainda pode durar alguns anos. Ali, ainda, permanecem as recorda\u00e7\u00f5es de ilustres figuras, que atravessavam a rua: Miguel Torga e Rui de Alarc\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quase tudo fica \u00e0 dist\u00e2ncia de quinze minutos a p\u00e9: o hospital, os centros comerciais e de sa\u00fade, a maternidade, a biblioteca e escolas p\u00fablicas, a Faculdade de Economia e o Jardim da Sereia. Talvez, por isso, alguns estrangeiros tenham feito significativos investimentos. A rua est\u00e1 a mudar muito depressa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Onde havia velhas casas t\u00e9rreas, erguem-se pr\u00e9dios. H\u00e1 um renascimento acelerado, \u00e0 medida que os velhos inquilinos morrem.\u00a0 Nos postes resistem pap\u00e9is das funer\u00e1rias com os nomes dos que faleceram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Alguns est\u00e3o esmaecidos, mas a fotografia permanece a lembrar-nos que viveram ali e eram vizinhos. A transforma\u00e7\u00e3o urban\u00edstica h\u00e1-de ser mais vis\u00edvel quando um velho edif\u00edcio for transformado numa resid\u00eancia universit\u00e1ria. As muitas casas que j\u00e1 foram felizes ostentam os tra\u00e7os da arquitectura como representa\u00e7\u00e3o de poder e de riqueza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Um misto de tristeza atravessa os nossos olhos, \u00e9, talvez, a ang\u00fastia da finitude que acicata o existencialismo. Sabemos que nada \u00e9 eterno, que \u201ctodo o mundo \u00e9 composto de mudan\u00e7a\u201d, mas resistimos a pensar nisso, quando a dor e a met\u00e1fora de uma persiana que se fecha para sempre.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;font-size: 12px\">Ant\u00f3nio Vilhena, Escritor, in Di\u00e1rio de Coimbra (27\/07\/2023)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 preciso ver a rua, o que l\u00e1 acontece, quem sobe e desce, as pessoas que entram nas casas atr\u00e1s das \u00e1rvores. As copas s\u00e3o amplas e derramam as sombras na cal\u00e7ada. 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